O Eclipse de 1940 e Seu Impacto Cultural
Na manhã do dia 1º de outubro de 1940, milhares de pessoas nas regiões Nordeste do Brasil presenciaram um evento extraordinário: um eclipse solar total que obscureceu o céu, gerando sensação de medo e insegurança entre os habitantes das cidades de Pernambuco, Paraíba e Ceará. Este fenômeno natural, além de ser um marco histórico, serve como um pano de fundo profundo para o novo romance intitulado “A Estrada dos Homens Doidos”, escrito por Rafael Setestrelo. O lançamento deste livro ocorrerá pela Cepe Editora, numa cerimônia marcada para a próxima sexta-feira, às 19h30, no Instituto Histórico e Geográfico de Vitória de Santo Antão.
O livro, que será vendido por R$ 50, poderá ser adquirido também pelo site da Cepe Editora. O eclipse funcionou como um divisor de águas, abrindo espaço para reflexões e revelações nos relatos da obra, que aperfeiçoam a relação entre história e história oral da região da Zona da Mata.
Rafael Setestrelo: Uma Voz da Zona da Mata
Rafael Setestrelo, um escritor natural de Vitória de Santo Antão, é conhecido por integrar diversas expressões artísticas em suas obras. Com um histórico que inclui a escrita de cordéis e atuação teatral, Setestrelo é professor de Língua Portuguesa no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Pernambuco (IFPE). Desde 2005, ele tem utilizado sua experiência acadêmica para estreitar os laços entre a literatura e a cultura popular, criando um espaço fértil para a expressão local.
Com 15 livros publicados até o momento, a obra de Setestrelo é frequentemente marcada por um diálogo intrincado entre a realidade e o imaginário popular. Em “A Estrada dos Homens Doidos”, ele revela mais uma vez sua habilidade de entrelaçar narrativas contemporâneas com as tradições orais herdadas de sua família e de sua cultura.
A Inspiração do Autor em Histórias Familiares
A inspiração para a criação de “A Estrada dos Homens Doidos” vem das recordações da infância de Setestrelo, alicerçadas nas histórias contadas por seu avô, Urbano de Souza Costa, conhecido como Pirrito. Relatos sobre o eclipse e sua repercussão na comunidade passaram de geração para geração, moldando a imaginação de Setestrelo desde cedo.
O autor lembra-se de um episódio em que seu avô, acompanhado de seu tio e de um amigo, partiu de Glória do Goitá para Limoeiro em uma jornada de negócios. Durante o trajeto, foram surpreendidos pelo eclipse, um evento que se tornaria a faísca criativa para sua obra literária. “A inspiração veio da ideia de uma caminhada”, explica Setestrelo. Essa experiência sobrenatural que seu avô descreveu tornou-se central na construção narrativa do livro, apresentando uma viagem a Limoeiro repleta de simbolismo e significados.
Trilogia: Ciclo dos Estranhos e Seus Temas
O romance “A Estrada dos Homens Doidos” é parte de um conjunto de obras desenvolvido por Setestrelo, que ele classifica como o “Ciclo dos Estranhos”. Junto com “Dom Pirrito” (2023) e “A Fabulação de Luzia” (2025), essas obras tocadas por temas universais como o preconceito e as tensões familiares compartilham um traço comum: a exploração de questões de identidade humana e da experiência vivida por seus personagens.
Setestrelo reflete: “Essas obras trazem características muito humanas, uma rica narrativa que aborda problemas pessoais e coletivos que todos enfrentam”. A proposta de conectar essas experiências à realidade e ao fantástico se torna um convite à reflexão sobre os dilemas contemporâneos.
Os Personagens e Suas Conflitantes Relações
No cerne do enredo de “A Estrada dos Homens Doidos”, os leitores são introduzidos a uma profunda jornada de três irmãos: Rubem, José e Judá. A narrativa os acompanha já adultos que, ao se reunirem, partem em direção à cidade de Limoeiro para um velório. Durante a viagem, os irmãos se deparam com um eclipse solar, simbolizando não apenas a escuridão do céu, mas também os conflitos internos que permeiam sua trajetória familiar.
O caminho que eles percorrem revela um passado repleto de mágoas, ressentimentos e dinâmicas complexas, sendo assombrados por traumas deixados por um pai severo e uma mãe que se vê sufocada por um silêncio opressivo. Setestrelo expressa: “Em “A Estrada dos Homens Doidos”, os personagens buscam formas de criar suas defesas, mas ao mesmo tempo, sentem a falta de proteção. A agressividade entre eles é constante, demonstrando como os conflitos moldam as identidades masculinas dentro de sua família.”
Oralidade como Ferramenta Narrativa
Um aspecto marcante de “A Estrada dos Homens Doidos” é a presença da oralidade como um elemento central da narrativa. Setestrelo utiliza essa técnica para tecer sua história, fazendo uma conexão fluida entre o presente e o passado e rompendo com tradições literárias convencionais. A oralidade dos personagens é um pilar que sustenta a trama, trazendo à tona situações emocionais profundas que refletem as complexidades da existência humana na Zona da Mata pernambucana.
O autor destaca a relevância de incorporar essa forma de narrativa, pois ela possibilita uma abordagem mais rica e multifacetada dos temas que permeiam a obra, tornando a leitura uma experiência acessível e envolvente para o público.
A Representação do Machismo e Esteatismo Familiar
Em “A Estrada dos Homens Doidos”, a representação do machismo e das relações familiares se entrelaça, revelando as fragilidades e os estigmas que perpassam a criação dos homens. O autor reflete sobre esse aspecto ao observar que os protagonistas são moldados pelas expectativas e imposições sociais relacionadas à masculinidade. Setestrelo comenta: “É como se estivéssemos olhando para a gênese do machismo, ou para o seu ‘átomo’, que influencia a dinâmica familiar e a maneira como esses homens se relacionam entre si.”
Essa análise crítica proporciona uma camada adicional à narrativa, levando o leitor a questionar não apenas as relações entre os personagens, mas também suas próprias referências sobre masculinidade e cultura.
O Processo de Criação Literária de Setestrelo
O estilo de escrita de Rafael Setestrelo exibe uma mescla de vozes e tempos, proporcionando um horizonte literário onde a imaginação e a experiência real se cruzam. Ao longo de “A Estrada dos Homens Doidos”, o autor assume uma postura reflexiva que lhe permite explorar as emoções e traumas de seus personagens de uma maneira visceral e verdadeira. Além de suas influências familiares, Setestrelo destaca a importância da cultura local na formação pautada das suas narrativas.
Ele ressalta sua ligação com a oralidade e a tradição, buscando constantemente mecanismos que deem vida às histórias que enfrentamos. Este compromisso com a autenticidade enriquece sua prosa e estabelece um diálogo entre o leitor e o texto, proporcionando uma leitura que é ao mesmo tempo agradável e provocativa.
O Lançamento e o Acesso ao Livro
O aguardado lançamento de “A Estrada dos Homens Doidos” será realizado no dia 20 de março de 2026, às 19h30 no Instituto Histórico e Geográfico de Vitória de Santo Antão. Durante o evento, os visitantes terão a oportunidade de adquirir o livro por R$ 50, com a possibilidade de compra online através do site da Cepe Editora. Esta é uma chance imperdível para os amantes da literatura pernambucana de conhecer a nova obra de Rafael Setestrelo e participar de um momento enriquecedor de interação com o autor.
Literatura e Cultura Popular em Sintonia
Além de sua produção literária, Rafael Setestrelo desenvolve no IFPE o projeto LiterAtos, que busca conectar a literatura com diferentes formas de expressão cultural popular, como o mamulengo, o maracatu e o cavalo-marinho. Esse projeto reforça sua missão de promover a valorização das tradições culturais nordestinas e de estreitar os laços entre a educação formal e a cultura popular.
Através de iniciativas assim, Setestrelo se posiciona como uma figura central na revitalização da memória cultural da Zona da Mata, utilizando sua escrita como uma ferramenta para refletir sobre as raízes e as interações sociais da região, contribuindo para uma produção literária cada vez mais rica e inclusiva.